Morador de rua é Assaltado o B.O. permite reencontro com família 37 anos depois, Veja.

By 21/07/2018Diversos

Morador de rua é Assaltado o B.O. permite reencontro com família 37 anos depois.

Morador de rua é alvo de ladrões e boletim de ocorrência permite reencontro com família 37 anos depois; VÍDEO

Do adeus à família para buscar emprego no Paraguai aos recursos limitados nas ruas do Centro de Campinas (SP) foram 37 anos. Em situação de rua, Fabiano Moreira Gomes passou por acasos que mudaram seu destino. Após ganhar perfil no Facebook e ser vítima em um registro policial, foi localizado pelos irmãos. A distância deu lugar a um reencontro surpreendente.

Os primeiros momentos com a família foram registrados em vídeos. Aquele 13 de julho de 2018 ficará marcado para sempre.

“Não imaginava. Não esperava essa maravilha de encontrar meus parentes. Meus pais, meus irmaõs, meus sobrinhos”, conta o homem, hoje com 63 anos.

Sem histórico de álcool e drogas, Fabiano era conhecido de quem passava com frequência na Avenida Francisco Glicério, uma das principais da cidade. Um lugar que marcou pelo sofrimento.

“Eu vivi sete anos na rua, mas fora dos meus parentes, 37 anos. Antes desse tempo andei em vários lugares, Paraguai, Paraná, trabalhando em outros serviços. E na rua fiquei um ano e quatro meses sem tomar banho, sem molhar nem a sola da mão”, lembra Fabiano.

Com pai e mãe ainda vivos, ambos com 87 anos, a caçula de nove filhos Marta Gomes Dias, de 43, tinha apenas 6 quando o irmão foi tentar ganhar a vida no Paraguai. Quando pensava nele, achava que estaria com família ou até morto. Mas a esperança era sempre alimentada pela mãe.

“Minha mãe dizia: ‘Eu não vou morrer antes de ver meu filho’. Ela tinha certeza, sentia no coração que ele estava vivo”, conta Marta, emocionada.

Esperança

Os cerca de 350 km que separavam Fabiano da família, religiosa e residente no bairro Jardim Santa Fé, em Olímpia (SP), começaram a ser encurtados quando uma comerciante da região central decidiu fazer um perfil do morador de rua no Facebook, conta a irmã.

Coincidentemente, uma das cunhadas de Fabiano viu o perfil e a foto chegou aos irmãos. A semelhança com o pai deles impressionou.

Marta tentou contato pela rede social e enviou a foto do irmão para mídias e classificados na esperança de localizá-lo. “Ele não me respondeu pelo Facebook. Enviei a foto dele pro Brasil inteiro, mas não tive retorno”.

As buscas terminariam dias depois, com uma solução bem próxima da rotina de Marta. Vigilante no Fórum da cidade, ela pediu ajuda a um policial militar. Com nome e data de nascimento, a procura foi por meio de registros na Polícia Civil.

Os mesmos dados estavam num boletim de ocorrência registrado em março deste ano. Fabiano havia sofrido uma tentativa de furto ao carrinho que usava para transportar seus poucos pertences.

“Um dia depois que o descobrimos na rede social, comecei a procurar, mandar foto nos classificados. Foi uma semana desde que localizaram o Fabiano na rede social e até localizar o B.O.. A gente conseguiu o endereço da delegacia e foi pra Campinas. Foi muito rápido”, conta a irmã.

“Foi muita surpresa. Não tem nem palavras para agradecer a Deus por esse privilégio de ter encontrado ele”, diz Marta.

Viagem de ida e volta

Os pais foram informados com todo o cuidado por conta da hipertensão e da saúde frágil. À meia-noite de 13 de julho, Marta e dois dos irmãos saíram de carro de Olímpia rumo à Campinas. A viagem foi longa até encontrarem o local exato. Às 8h30 estavam na porta da delegacia.

“A gente entrou em contato com um policial e ele disse onde a gente poderia encontrar uma pensão, o endereço que ele deu quando fez o B.O.. Eram dois quarteirões da delegacia. A gente foi andando a pé e todo mundo que a gente via na rua, a gente olhava”, conta.

Ao chegarem na pensão, foi o próprio Fabiano quem os recebeu. Os irmãos não demoraram a contar o própósito da visita e as lembranças que vieram à tona foram suficientes para homem ter a certeza de que estava diante da sua família e, principalmente, saber que os pais estavam vivos e esperando por ele.

“A gente começou a falar coisas do passado que só ele mesmo poderia lembrar. Pra ele acreditar que era a família mesmo. Foi caindo a ficha, a felicidade foi demais. Ele ficou em choque. [Quando soube dos pais] ele chorou de emoção, pra ele foi uma surpresa”.

Fabiano integra programas de assistência da Prefeitura de Campinas e, resolvidas as questões burocráticas, entrou no carro com os irmãos às 12h30 do mesmo dia. No fim da tarde, ele já estava junto aos seus pais em Olímpia.

“Os pais estavam sentadinhos. Os vizinhos, todo mundo na rua querendo ver, esperando a volta dele, pessoas que nunca viram ele na vida, mas todo mundo queria ver”.

“Deus te abençoe”, diz o pai, no vídeo.

O abraço nos pais foi longo e de poucas palavras. Um a um, os irmãos se revezaram entre carinho e muita emoção. Acolhido na casa de Marta, onde a familía busca ajuda de doações para construir um quartinho pra ele, Fabiano ainda parece sob o encanto de toda a mudança em sua vida.

“Senti uma coisa muito maravilhosa.[…] É dura a situação, né, a vida de um pobre. Não tenho mais palavras”, diz já com a voz embargada, emocionado.

Medo das pessoas

O resgate dos laços familiares de Fabiano vinha sendo uma missão também para Cláudia Gripe nos últimos meses, principalmente nas últimas semanas. Ela é monitora social do programa SOS Rua, da Prefeitura, acompanhava o caso dele e nem desconfiava que o encontro estava prestes a acontecer.

Conta que sempre esbarrava na dificuldade que Fabiano apresentava para se aproximar das pessoas.

“Ele tem um longo histórico de rua em Campinas. A princípio não aceitava nenhum tipo de aproximação. Sofreu várias violências nesses anos, mas, quando acontecia alguma coisa muito grave, ele pedia para chamar assistência e Samu”, conta.

“Já tentaram roubar as coisas dele, já foi ferido gravemente, teve algumas passagens pelo Hospital Municipal Dr. Mário Gatti. Ele tem diabetes, pressão alta”, completa.

Depois que as coisas não deram certo no Paraguai e a passagem por cidades no Sul e Sudeste até parar em Campinas, o emprego não veio como imaginava e a rua foi a opção que restou.

“Eu não consegui serviço. Quando eu pedia, me enrolavam. Meu troquinho acabou e fui pra rua, fui viver do que o povo me dava”, lembra Fabiano.

Passados alguns anos, ele aceitou o acolhimento da Prefeitura. Conseguiu assistência médica, alimento, moradia, benefícios. Era uma das 623 pessoas em situação de rua em Campinas, até o dia 13 de julho.

“Foi um desfecho muito surpreendente. Toda a evolução do caso foi surpreendente, era uma pessoa que não aceitava nenhum tipo de aproximação. Eram poucas vezes que ele aceitava ajuda, foi acompanhado por vários profissionais. Resultado de um trabalho de parceria. É uma realização”, diz Cláudia.

Fonte: G1.com