Em passeio da escola menino engasga com cachorro-quente e morre

By 24/01/2018Diversos

A mamãe do menino, Alessandra Zamora, luta para lei para que a escola capacite os professores para realizar primeiros socorros.

Em entrevista exclusiva à CRESCER ela diz : “São minutos que podem salvar vidas e evitar que outras famílias passem pelo mesmo sofrimento”.

O que deveria ser um passeio de escola, divertido e cheio de boas recordações, se tornou o dia mais triste na vida da família de Lucas Begalli Zamora. O garoto, de apenas 10 anos, engasgou com o cachorro-quente servido na hora do lanche em uma excursão, o que o levou à asfixia mecânica em questão de minutos. Ele foi transferido em uma UTI móvel para o hospital na sequência. Porém depois de sete paradas cardíacas e 50 minutos de tentativas de reanimá-lo, infelizmente, Lucas se foi. O caso aconteceu em Campinas, em setembro de 2017.

A história, no entanto, poderia ter tido um final feliz se as medidas de primeiros socorros tivessem sido colocadas em prática a tempo e corretamente. “Quando o SAMU chegou no local, já não havia muito a ser feito para salvar a vida do meu filho, o que deixa claro que esperar pelo socorro não é suficiente. São o primeiros minutos que podem salvar uma vida, afinal, quanto tempo você consegue ficar sem respirar?”, contou Alessandra Begalli Zamora, em entrevista exclusiva à CRESCER.

A mãe passou por um período em que sua única vontade era de morrer também, assim estaria ao lado do filho. Nesse meio tempo, em outubro, a irmã de Alessandra, Andréa Zamora Bettiati, criou a página Vai Lucas, no Facebook, a fim de conscientizar a população sobre o risco dos engasgos. Ela buscava dados e imagens que mostravam como fazer as manobras de desengasgo – para se ter uma ideia, segundo os dados mais recentes do Ministério da Saúde (2015) sobre isso mostram que 810 crianças, de até 14 anos, foram vítimas de sufocamento só naquele ano. O que não esperava era que 48 horas após entrar no ar alcançaria 5 mil seguidores, que passaram para mais de 120 mil em dois meses. “Ali ficou claro que sofrer calada não amenizaria a minha dor, então me uni à minha irmã para fazer algo a mais por todos nós. E assim, aos poucos o sentimento de angústia foi dando espaço à vontade de conscientizar outros pais e cuidadores sobre a importância dos primeiros socorros, tão preciosos e ao mesmo tempo tão subestimados no Brasil”, diz Alessandra.

Da dor nasceu uma causa
Advogada por formação, mas até então mãe em tempo integral de Lucas, Alessandra foi procurar na legislatura o que havia sobre a obrigatoriedade de espaços de recreação e escolas terem um profissional capacitado para exercer os primeiros socorros ou oferecerem cursos de capacitação aos próprios professores e cuidadores. “Encontrei pouquíssima coisa na lei, mas achei uma lei estadual que fala que as escolas devem colocar na grade curricular dos alunos o assunto primeiros socorros, além da capacitação dos professores para lidar com situações como a que aconteceu com meu filho. Não pensei duas vezes para procurar a Câmara Municipal de Campinas, cidade onde moro, que se dispos a fazer o primeiro projeto da Lei Lucas (uma lei municipal, sendo assim). E não luto por esta causa apenas para resgatar a memória do meu menino ou para homenageá-lo. O que realmente me importa é contribuir para que outros pais não passem pela dor que eu passo diariamente, afinal, nada vai trazer meu filho de volta”, desabafa.

Capacitação para cuidadores: ponto principal da Lei Lucas
Na entrevista, Alessandra citou o tempo todo que não cabe a ela encontrar culpados ou responsabilizar os professores pelo ocorrido. “No tanto, é fato que a primeira pessoa para quem pedimos explicações são justamente aquelas responsáveis pelo cuidado com nossos filhos. São eles que estão em contato direto com as crianças nas escolas e nos passeios. Esse é o ônus da profissão de qualquer cuidador. O que o projeto de lei prevê é que estes cuidadores, que também estão numa situação vulnerável e não têm culpa por não saber o que fazer, passem a ter conhecimento para colocar em prática neste tipo de situação. O projeto não fala que o professor deva ir atrás e fazer o curso, mas sim que as escolas proporcionem os cursos para os professores”, detalha.

“O meu maior desejo é que a sociedade se una. Infelizmente é preciso uma lei para que ações básicas de salvamento sejam colocadas em prática e conscientizem o maior número de pessoas. Mas a luta vai muito além desses ambientes escolares ou de recreação. Todos estamos sujeitos e não tem como prever estas situações. Você pode precisar dentro da sua própria casa, com quem você mais ama. O dia em que eu abrir o jornal e ler: “Aluno engasga em escola e professor salva a sua vida”, sentirei que meu luto chegou ao fim””.

Fonte: CRESCER